O pior do Botafogo é o seu melhor por Sidney Garambone

por Garambone |seg, 10/09/12

Andei defendendo o Botafogo há alguns dias. Eram dias, aliás, mais cinzentos que as famosas meias de Fischer e Ferreti. O time patinava, perdia, muita gente apontou o dedo acusador para Oswaldo de Oliveira e poucos tinham a calma de perceber algo cruel. O Botafogo, do dia para a noite, do preto para o branco, desfez-se de seu ataque.

Puff. Foi embora o ataque alvinegro.

Herrera optou por engordar o salário e saiu. Caio optou pela titularidade e saiu. Loco Abreu optou pela unanimidade e saiu.

Veio Rafael Marques, mal jogou, machucou e ainda foi vaiado.

Eis o retrato dramático e expressionista do Botafogo no meio do campeonato brasileiro. Um elenco com bons jogadores no meio-campo. Uma defesa entrosada, mas em crise. Um goleiro de Seleção. Um esquema tático repentinamente estuprado. Viu-se um time torto.

Chegou Seedorf. Com calma e sorrisos, começou, ao lado do treinador, a aparar as arestas do time torto. Mas as derrotas e resultados ruins continuavam.

Súbito, três vitórias consecutivas. Bonitas, históricas, tipicamente botafoguenses. E do que se achava lama brotou uma verdade surpreendente. O maior defeito do Botafogo, hoje, início de setembro, é a sua maior virtude. A falta de ataque.

Como pode um time sem ataque fazer tantos gols? Já são 38 gols em 23 jogos. O mais positivo da competição, ao lado dos queridinhos Fluminense e Atlético Mineiro.

O maior defeito do Botafogo é sua maior virtude.

Sem atacante, o time demora mais a definir, chega à grande área adversária e precisa decidir qual a melhor maneira de atingir o gol. E o que parece indecisão vira surpresa. As defesas adversárias ainda não aprenderam como marcar este novo ataque-fantasma do Botafogo. Ninguém prevê se virá um chute de fora da área, uma infiltração, uma tabelinha, um cruzamento. Ninguém sabe. Nem mesmo os botafoguenses. Talvez seja a esquizofrenia mais saudável dos últimos tempos no futebol brasileiro. Sem ter um centroavante clássico, daqueles de verbete da Barsa, o Botafogo transformou todos os seus jogadores em potenciais centroavantes. Dificultando a marcação de quem está do outro lado. Basta olhar os últimos gols. Cada um de um jeito, de uma forma, cada um com seu charme diferente.

Elkeson continua perdido. E perdido, ele vem se encontrando e deixando os marcadores tontos.

Para continuar assim, Osvaldo e companhia precisam assumir este jeito de jogar, este jeito de confundir, e seguir jogo a jogo surpreendendo. A si mesmo. E aos rivais

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Sidney Garambone – Jornalista

Sidney Garambone – Jornalista

Na imprensa há 20 anos e com passagens por Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e Istoé, é atualmente editor-chefe do Esporte Espetacular, debatedor do Arena Sportv e Redação Sportv. Tem mestrado em Relações Internacionais, escreveu quatro livros (O Caçador de Barangas, em 2000, A Primeira Guerra Mundial e a Imprensa Brasileira, em 2003, Eu, Deus, em 2006 e Os 11 Maiores Volantes do Futebol Brasileiro) e acha que futebol é cultura.

e-mail: garambone@globo.com

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