Bianca Miarka remadora da seleção brasileira tem um olho na lagoa e outro no tatame

Bianca remadora e judoca - Foto: André Durão

Bianca Miarka, do Botafogo, mira o Pan e os Jogos Olímpicos na água enquanto desenvolve software que ganha reconhecimento mundial na análise de lutas de judô.

Por Marcio Menezes
Rio de Janeiro
Foto: André Durão

Bianca Miarka, 31 anos, remadora do Botafogo e da seleção brasileira, é uma das maiores especialistas em judô no mundo. A afirmativa é essa mesmo, não há nenhum erro. A loira vive entre os remos e o quimono, os seus dois amores: o presente aponta para a água, e o futuro, na direção do tatame.

Enquanto mira, como remadora, competições importantes em um futuro próximo, como o Pan de Toronto e os Jogos Olímpicos do Rio, Bianca conduz a sua carreira acadêmica intimamente ligada às artes marciais. De um projeto para o mestrado saiu o FRAMI, programa de análise técnica e tática de lutas que já está sendo usado por vários treinadores de judô no mundo, em países como Espanha, Itália, México, Chile e no Leste Europeu, tornando-a referência internacional na modalidade.
Bianca Miarka, remadora e judoca (Foto: André Durão)Bianca Miarka, remadora e ex-judoca, foi ao barco de quimono: ligada intimamente a dois esporte (Foto: André Durão)

O FRAMI, de fato, já é uma realidade. Além da difusão crescente, o super scout criado por Bianca está patenteado, em uma parceria entre ela mesma, a Universidade de São Paulo (USP) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O resultado impressiona ainda mais quando ela revela que a intenção inicial era desenvolver apenas uma ferramenta que ajudasse em seus estudos.

Bianca remadora e judoca - Foto: André Durão
Bianca Miarka, remadora e judoca – Foto: André Durão

– A concorrência era grande, e eu tinha de pegar um assunto que ninguém pensasse em encarar: a análise de mais de 240 grupos de judocas, divididos por peso, sexo, cidades e nível competitivo. Eram mais de 2.500 lutas. Não dava pra organizar isso à mão. Acordei um dia de madrugada, fui tomar um banho e decidi fazer um software. Conhecia programação porque fiz um ano de processamento de dados e isso facilitou a minha vida – disse Bianca, até hoje orgulhosa da análise da banca na apresentação da tese.

– Elogiaram muito o software. Disseram que ele ajudaria muitos lutadores e técnicos e me daria artigos internacionais – completou.

A profecia da banca de fato se concretizou, já que o programa tem sido amplamente requisitado. No entanto, ganhar dinheiro com ele não é a maior meta de Bianca.

– Eu, a USP e a FAPESP temos, cada, 33% dos direitos autorais do programa. Para poder comercializá-lo, teria de conversar com essas instituições. Isso seria um prazer, mas reduziria muito o acesso ao material por parte de quem realmente precisa, que são os técnicos. Por isso, estou enviando gratuitamente para quem deseja adquirir uma versão do programa. É só entrar em contato comigo – completou.

Desenho animado como inspiração

Como esportista, a vida de Bianca atualmente se dá entre o mar e a montanha, no belíssimo visual proporcionado pela Lagoa Rodrigo de Freitas e seu entorno. Mas o judô foi o seu primeiro amor. Ainda criança, em Itapecirica da Serra, no interior paulista, ela se encantou pelo esporte com ensinamentos lúdicos de uma velha duplinha dos desenhos animados.
Quando via o Jerry, de quimono, pequenininho, derrubando o Tom, aquilo me chamava bastante a atenção. Eu queria ser forte, sabe?
Bianca Miarka

– Eu tinha mais ou menos oito anos, e a minha babá era a TV. Quando via o Jerry de quimono, pequenininho, derrubando o Tom, aquilo me chamava bastante a atenção. Eu queria ser forte, sabe? Aí fui procurar se havia judô na minha cidade e encontrei o professor Luiz Shinohara, hoje técnico do Brasil – disse ela, que integrou a seleção entre 2004 e 2006, antes de explicar que as lesões nos joelhos lhe abreviaram a carreira no tatame, mas serviriam para abrir novas portas.

– Eu já tinha parado devido às lesões no joelho, e o médico disse que eu precisaria operar, pois tinha dificuldade até para andar. Vi que na USP eu poderia cumprir parte das minhas horas de laboratório no remo e decidi praticar. O joelho ia melhorando, e o interesse, aumentando. Eu nem pensava em voltar ao esporte de alto rendimento, mas a cada treino eu ia baixando meus tempos – explicou a remadora.

Bianca gosta de ressaltar que o tempo de tatame a ajudou muito a ser uma remadora de ponta, apesar das diferenças entre os esportes e a melhora que ela ainda busca na modalidade atual.

– O judô me deu uma condição física que proporcionou meu estopim no remo. Não há a mesma variedade de movimentos como no tatame, mas existem outras variantes, como o vento e o comportamento da água. Ter expertise em situações diversas é meu desafio como remadora – diz Bianca, ainda apegada aos valores da arte marcial:

– A disciplina e a dedicação são ensinamentos constantes do judô. Você tem de ser um modelo de pessoa antes de qualquer coisa. E isso a gente traz para a vida, embora muita gente deixe isso de lado hoje pelo brilho do resultado.

Os desafios na água

A longevidade do remo também anima Bianca, que ainda tem uma longa jornada no esporte.

– Em Londres, havia uma atleta com 48 anos nos Jogos. O remo não propicia muitas lesões, e o auge é mais tardio, por volta dos 33 anos.

Assim, Bianca caminha para o seu ápice num futuro breve, em um ano mais do que especial: 2016. Nesse caminho, há competições importantíssimas, como o Pan de Toronto e a Olimpíada do Rio. Apesar disso, dentro do barco, a vida de Bianca não tem navegado em mares muito calmos. O apoio financeiro, ou a falta dele, é o principal problema.

– Tem sido um ano difícil pra mim. Adoro o remo, mas sem o suporte básico, que é moradia, alimentação e estrutura física para a prática do esporte, fica difícil defender o Brasil lá fora de forma digna. Temos bons técnicos, mas convivemos com problemas financeiros. Nossos patrocínios são pontuais. Eu ainda trabalho com esportes de combate porque sem isso não consigo manter o meu padrão de vida – argumenta ela, explicando que não dormiu no dia anterior à entrevista devido às suas atividades acadêmicas, que não são poucas: ela faz pós-doutorado na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), na qual está expandindo a metodologia do FRAMI para outras modalidades e onde dará aula a partir de agosto, além de um curso de extensão à distância da prestigiada Universidade de Harvard.

Bianca Miarka, remadora e judoca - Foto: André Durão
Bianca Miarka, remadora e judoca – Foto: André Durão

Apesar de toda a correria, o planejamento básico até o foco principal, a Olimpíada, está traçado.
– A preparação está totalmente voltada para 2015 e 2016. Optei por dar prioridade para esses anos, como se faz nos países europeus.

– Ano que vem, quero disputar a seletiva para o single skiff pesado para tentar ir para as principais competições internacionais, especialmente, o Pan-americano em Toronto e poder defender o Brasil em 2016. No momento, vim para o Sul do Brasil para fazer um momento de preparação especial para o ano que vem – disse a paulista, que assume que o foco não está nas competições deste ano.

– A preparação está totalmente voltada para 2015 e 2016. Optei por dar prioridade para esses anos, como se faz nos países europeus.

O segundo desafio de Bianca pode ser dentro do barco, deparando-se com a principal remadora do país. Em sua prova principal, o single skiff pesado, ela pode ter pela frente nas seletivas a maior remadora brasileira da história.

– Não podemos esquecer da Fabiana Beltrame. Os resultados dela deram mais respeito ao remo feminino. Ela quebrou paradigmas de um contexto histórico. Respeito ela muito como adversária e pessoa. Ela foi ouro no Mundial no single skiff leve, prova não olímpica. Agora, ela está focada com tudo no double skiff para a Olimpíada com uma jovem talentosa, a Beatriz Tavares, mas nunca se sabe se ela vai disputar a vaga para o single skiff pesado também – destacou.

As condições da Lagoa Rodrigo de Freitas para a disputa olímpica do remo são motivo de preocupação para a remadora. Ela, que tem o cartão postal carioca como local de treinos e competições, assume a preocupação com o estado da sede das provas no Rio-2016

– As condições naturais a gente enfrenta, o maior problema é a falta de algumas adaptações necessárias para a modalidade. Precisamos de uma barragem móvel, já que os jetskis fazem muita ondulação na lagoa, até jogando água pra fora, e de raias. O pontão também precisa ser reforçado. Faltam boias, complica muito pra quem vem de fora. Essas coisas são necessárias para torneios menores, até mesmo no Estadual.

Bianca remadora e judoca - Foto: André Durão
Bianca remadora e judoca – Foto: André Durão

Foto: André Durão
Crédito:http://globoesporte.globo.com/remo/noticia/2014/08/remadora-da-selecao-brasileira-tem-um-olho-na-lagoa-e-outro-no-tatame.html

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2 Comments

  1. Parabens pelo maravilhoso trabalho, na manutensão desse esporte!
    Sou um remador veterano com apenas, 66 anos, e ainda pratico remo em um double skife, na cidade de Santos, graças ao grande coração do professor Ricardo Linares, da Usp de São Paulo, que nos fez presente de alguns barcos.
    Hoje fiz uma visita ao vosso site e gostei muito doque vi. Espero um dia, poder visitá-los pessoalmente. Parabeins!!!

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    1. Amigo Agostinho. Obrigado pelo seu carinho e apoio ao nosso querido Remo e é um prazer receber a sua visita nesse espaço para enaltecer as glórias do Regatas Botafogo. Muito obrigado. Que DEUS o abençoe e abraços respeitosos na família.

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